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Introdução a Necromancia x Relíquias da Igreja

  • há 3 dias
  • 7 min de leitura

Antes de ser vulgarizada em cultos populares de diversas vertentes, a necromancia já envolvia critérios e seriedade, entre eles: restos mortais.


E não à toa está atrelada a levantamento de mortos, comunicação aleatória com espíritos de origem encarnada desconhecida como entidades e mensageiros, definitivamente não é e nunca foi necromancia. Até em cultos sul-americano mais antigos haviam fundamentos com ossadas humanas e isso não acontecia sem fundamentos.


Ao vasculhar camadas em uma investigação histórica, é possível observar que a manutenção e o estabelecimento de contato divinatório e obtenção de informações com mortos, Daniel Ogden, pesquisador e professor de história antiga, apresentou um conjunto de práticas que envolvia também reanimação de cadáveres.


Alinda Damsma, mestre e doutora em línguas semíticas, apresentou a reavaliação do arquivo paleoassírio de Kaniš, qual descreve a consulta aos eṭemmū (espíritos dos mortos), o documento mais antigo, e com evidências inequívocas sobre a necromancia, datado em 1950 a.C., na Mesopotâmia. Época em que os mortos não eram somente espíritos desencarnados, mas existências conscientes no pós morte, culturalmente atrelados aos presságios, adivinhação, ritos fúnebres, exorcismos e culto.


O assiriologista e filósofo Irving Finkel, também curador do Departamento do Oriente Médio do Museu Britânico, publicou em estudo dedicado à investigação da necromancia na Mesopotâmia e demonstrou um sistema maior de práticas mágicas-divinatórias, interpretados a partir de milhares de tabuletas de argila, integrando um vasto conhecimento aplicado a teologia e o cotidiano da civilização local. As evidências revelaram rituais, processos psíquicos sobre morte, finitude e transição, retorno dos mortos e em quais circunstâncias, defesas contra desencarnados e manuais de exorcismos, práticas de purificação, oferendas, cânticos, encantamentos e evocação; além da necromancia ser considerada socialmente perigosa e evitada pela maioria comum, embora a elite e governantes recorrerem a rituais necromânticos em períodos de crise.


Já no Egito Antigo há uma diferenciação importante entre culto fúnebre e necromancia, com aspectos distintos entre literatura, rituais, fórmulas e cultos. 


Somente na Grécia a necromancia ganha uma certa forma mais conhecida, principalmente pelas representação de Homero, em a Odisséia, que relata a consulta de Odisseu à Tirésias (morto) para conhecer seu destino e retorno, esses elementos foram absorvidos e tornados característicos da necromancia. Lá haviam locais especializados, chamados nekromanteia, o oráculo dos mortos, como: Aqueronte, Averno, Heracleia e Tainaron, sempre ambientes cavernosos, subterrâneos ou próximos à água.


Em tempos mais antigos era comum que o necromante dormisse dentro do túmulo para obtenção de contato e desde essa época remota é necessário um encerramento rigoroso para finalizar e desconectar do desencarnado.


O processo necromântico sempre exigiu uma série de critérios invioláveis, dentre eles, o estabelecimento de uma condição apropriada, a preparação adequada do espaço, oferendas de sangue - sim, exatamente, e não está relacionado a conquista de poder mágicko e sim com o princípio da vitalidade para facilitar a comunicação através da manifestação; além de libações, ofertas de alimentos, incensos e a partir daí o morto era convocado pelo seu nome de importância recitado na invocação. Faziam também a reanimação do morto, tratando-se de uma parte mais avançada e complexa.


O crânio, muito popular em altares moderno em materiais de resina, tem representatividade na necromancia real, ele representa a parte reconhecível e duradoura do ser, seja humano ou animal, e é o suporte para o canal material da presença do morto em questão, assim como outras partes da ossada possuem significado no culto.


Os aptos para operar a necromancia geralmente possuíam o que hoje conhecemos como formação, na Mesopotâmia havia os especialistas na ritualística, na Grécia os goētes, em Roma os magos, no Egito os operadores de papiros; na Idade Média a coisa sobre um reboliço, a necromancia foi incorporada no vocabulário latino e passou a ser associado a magias negativas, consequentemente, alvo de perseguição da Igreja e é a partir dessa época que a imagem se distorce e o necromante vira um clássico usual de grimório para falar com espíritos desencarnados a qualquer maneira. Inclusive, Richard Kieckhefer, estudou um manual do século XV que trata a necromancia como uma tradição complexa e sofisticada, envolvendo orações, conjuros e magias específicas, associados a astrologia, catalogação dos espíritos e cerimônias de consagração.


A partir dessa época a necromancia começa a ser misturada com a demonologia, então, o espírito não se limita mais a um desencarnado, sendo incluído não nascidos (“demônios” e “anjos”), isso explica grimórios necromânticos totalmente desconexos da origem da prática.


Há evidências sobre a utilização de restos humanos nas práticas, K. M. D. e Boaz Zissu publicaram o estudo sobre as descobertas na caverna de Te'omim, nas colinas da Judeia, que onde havia uma concentração arqueológica expressiva apontando diretamente para as práticas necromânticas entre os séculos II e IV d.C. - o que chamam de Antiguidade Tardia. 


Os restos mortais eram utilizados nas mais diversas finalidades, a Dra. Conny Lippert, mestre e PhD, ao publicar na Encyclopedia of the Gothic (Wiley) explicou que havia uma maneira um tanto macabra da magia necromântica que envolvia a exumação de cadáveres e a utilização das partes corporais como ossos, fluídos biológicos, pele, etc., em práticas que envolviam o consumo ritualísticos. Em algumas práticas esse consumo ritualístico do morto esteve associado à incorporação das qualidades do mesmo, transferência de força e identidade, submissão e vinculamento; movimento que acontecia também em práticas canibais de tribos, chamado na antropologia como endocanibalismo (consumo de membros da própria comunidade) e exocanibalismo (consumo de inimigos). 


No passado também houve um movimento chamado medicina de cadáver que aconteceu na Europa Medieval, onde era consumido restos humanos através de múmias egípcias, gordura, sangue, ossos e demais partes empregados em medicamentos, esse fenômeno foi chamado corpse medicine. Esse campo não foi considerado magia, mas sim uma espécie de tratamento baseado no princípio de semelhante cura semelhante, uma vez que certas propriedades permanecem no corpo após a morte, isso foi documentado pelo complexo Smithsonian que reúne uma base medicamentosa relacionada à temática. Portanto, fluídos, sangue, ossada, crânio, dentes, cabelos, pelos, cinzas, pele e outras partes (como entranhas), incluindo decomposição, eram aplicados em práticas diversas de ingestão, fumigação, unção, invocação, comunicação, dentre outras.



Igreja Católica


E chegamos ao ponto polêmico: a necromancia na igreja católica. Como é sabido, a igreja absorveu e reinterpretou práticas de diversas culturas (LEIA AQUI: Cristianismo: o grande plágio da história), principalmente das práticas pagãs, e isso se tornou o que chamam de culto das relíquias, ou seja, com os restos mortais dos nomeados santos, institucionalizado de forma a transformar a preservação, atribuição taumatúrgica e até mesmo as sepulturas a fim de torna-las e tornar sagrado.


O culto às relíquias envolve a veneração dos restos mortais e objetos pessoais da pessoa falecida nomeada santa, uma necromancia antiga repaginada, sendo que a mesma igreja condena a prática necromântica e a divinação, portanto, o termo latino necromantia passa a ser associado a magia ilícita. A reclassificação não muda a estrutura, a igreja venera e solicita intercessão, mas sem realizar a consulta, então o mecanismo antropológico permanece e mantém a similaridade: desencarnado + corpo + restos mortais + contato + presença = benefício, percebem a estrutura da igreja: desencarnado + corpo + restos mortais + santificação + intercessão = milagre/intervenção; a teologia muda, mas o papel central do morto e manutenção de culto continuam.


Mas para afirmar isso precisamos entender como isso aconteceu.


Entre os séculos II e III os cristãos já preservam e veneravam os restos mortais de mártires, como o Policarpo, Bispo de Esmirna, que teve sua história conhecida sob o título de Martírio de Policarpo, os cristãos recolheram os ossos e celebravam a memória dele junto ao local onde foi sepultado, a data da sua morte, 23 de fevereiro, virou data de celebração litúrgica.


Ao interpretar a eucaristia, principalmente na celebração que acontecia nos túmulos dos mártires nos séculos passados, observamos um movimento necromante indiscreto que transformou o espaço fúnebre em um espaço litúrgico que transformava a catacumba em altar, lá faziam rezas, lembraram o aniversário do martírio  e isso foi formalizado pelo Segundo Concílio de Nicéia, em 787. O que já existia, era praticado e desenvolvido, foi absorvido e reconfigurado dentro da cosmologia cristã.


A teologia cristã pratica a dulia, ou seja, a honra e veneração aos santos, apontando a diferença entre idolatria, qual dedicam a deus, porém, faz parte dos atos de fé: tocar a relíquia (restos mortais), beijar, passar tecidos e objetos sobre, beber substâncias que estejam associados ao santo, rezar diante dos restos, pedir cura e outros milagres, logo, a eficácia é atribuída a santidade que mediaria materialmente pelo corpo, porque creem que o corpo, de certa forma, continua operando no pós morte, se mantendo socialmente ativo.


Há outro detalhe que vai além a preservação do corpo cadavérico, é comum fragmentar o corpo em partes de ossos, dentes, dedos, mãos, braços, crânio, órgãos, etc., e essas são distribuídas em diferentes igrejas na crença de que a presença do santo pode ser multiplicada. Para que isso aconteça de forma eficiente, a igreja desenvolveu uma cultura robusta de preservação, exumação, inspeção e critérios de exposição em ritos, uso de máscaras de cera, revestimentos, dentre outros. O Capuchinhos de Roma exibe milhares de restos mortais organizados arquitetonicamente, por exemplo.

No século XVI, com a reforma protestante, o culto das relíquias foi alvo de grandes críticas, período em que o Concílio de Trento reafirmou a legitimidade da veneração dos santos, imagens e relíquias, na interpretação que por serem vivos em deus podem ser venerados e que deus pode conceder benefícios através deles.


Piora, a preservação de cadáveres movimentou a igreja política e economicamente, ter relíquias era sinal de poder, prestígio, autoridade, riqueza, legitimidade, justamente por isso os corpos e fragmentos foram continuamente roubados e disputados ao longo da história para serem vendidos e foram também falsificados.


Após compreender a necromancia desde a antiguidade, é importante salientar que a igreja rejeitou a necromancia na sua base, mas preservou e reconfigurou a estrutura da relação com os mortos. 




Fontes acadêmicas fundamentais




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